Uma comparação entre o primeiro programa de governo de Lula e as propostas apresentadas para um eventual quarto mandato revela temas que atravessaram 24 anos de discursos, campanhas e governos — alguns transformados em políticas públicas, outros ainda apresentados como desafios a serem enfrentados ou mera promessas eleitoreiras.
Em 2002, quando Luiz Inácio Lula da Silva disputou pela primeira vez uma eleição presidencial que venceria, seu programa se chamava “Um Brasil para Todos — Crescimento, Emprego e Inclusão Social”. O documento colocava no centro do projeto a redução das desigualdades, geração de empregos, segurança pública, educação, saúde, habitação, reforma agrária e combate à pobreza.
Vinte e quatro anos depois, os mesmos grandes problemas continuam ocupando espaço no programa apresentado pela candidatura de Lula para 2026. O documento oficial disponível no TSE fala novamente em combater desigualdades, melhorar a segurança pública, garantir educação, ampliar moradia, fortalecer a agricultura familiar, avançar na reforma agrária e gerar empregos. O próprio texto afirma que ainda existem “gargalos e insuficiências” na educação e que o país precisa continuar avançando na redução das desigualdades.
FOME: UMA PROMESSA QUE TEVE ALGUM RESULTADO INICIAL — MAS CONTRASTA COM O CRESCIMENTO DAS POPULAÇÕES DE MORADORES EM SITUAÇÃO DE RUA
Aqui é preciso fazer justiça aos fatos. O combate à fome não pode ser apresentado simplesmente como uma promessa não cumprida. O Fome Zero foi uma das principais bandeiras do primeiro governo Lula e, atualmente, o programa de governo afirma que o Brasil voltou a sair do Mapa da Fome. Dados da FAO divulgados em 2026 indicam que o país permaneceu fora do Mapa da Fome no triênio 2023–2025, com 0,6% da população em insegurança alimentar grave.
Mas há uma ironia histórica importante: um tema apresentado como prioridade nacional em 2002 continua sendo uma das prioridades centrais do programa de 2026. A diferença é que, agora, a campanha sustenta que houve avanço e promete aprofundar a política de segurança alimentar. Ou seja: a promessa mudou de “tirar da fome” para “consolidar e ampliar o resultado”. Será mesmo? Em todas as cidades as populações em situação de rua só aumentam. A fome e a miséria estão latentes e em grande escala. A conta não fecha, 24 anos depois.
_____continua depois da publicidade________
REFORMA AGRÁRIA: 24 ANOS DEPOIS, A PROMESSA CONTINUA
Aqui a repetição é particularmente evidente. O programa de 2002 defendia a realização da reforma agrária, o fortalecimento da agricultura familiar e políticas de crédito e assistência técnica.
Em 2026, o programa apresentado ao TSE afirma literalmente que o próximo governo pretende “continuar” avançando na reforma agrária, assentando famílias acampadas, estruturando assentamentos e ampliando o acesso ao crédito fundiário.
Isso não significa que nada tenha sido feito. O Incra informa que quase 50,6 mil famílias foram incorporadas ao Programa Nacional de Reforma Agrária em 2023, e o governo lançou em 2024 o programa Terra da Gente, com estimativa de beneficiar 295 mil famílias até 2026. O ponto investigativo é outro: se depois de três mandatos presidenciais a própria campanha continua apresentando a reforma agrária como uma tarefa a ser realizada, fica evidente que o objetivo estrutural permanece inconcluso. Quanto tempo Lula precisará pra cumprir tudo que promete?
MORADIA: OUTRA PROMESSA QUE ATRAVESSOU GERAÇÕES
A questão habitacional também estava presente no projeto de 2002, associado ao chamado Projeto Moradia e à ampliação do acesso à habitação popular.
Hoje, o Minha Casa, Minha Vida é novamente apresentado como uma das principais políticas do governo. O programa de 2026 afirma que a meta de contratação foi elevada para 3 milhões de moradias até o fim de 2026 e promete ampliar o programa no próximo mandato.
Mas o problema estrutural permanece: levantamento da Fundação João Pinheiro apontou déficit habitacional de 6,215 milhões de domicílios em 2022, equivalente a 8,3% dos domicílios particulares ocupados. Portanto, houve políticas e entregas, mas o problema que justificou a promessa continua existindo em escala nacional.
SEGURANÇA PÚBLICA: UMA PROMESSA DE 2002 QUE AINDA EXIGE NOVA ESTRUTURA
Em 2002, Lula prometia instituir um sistema nacionalmente articulado de segurança pública, diante do avanço do crime organizado e da violência.
Em 2026, a proposta volta praticamente ao mesmo ponto estrutural: integração entre União, estados e municípios, inteligência, combate ao crime organizado e uma maior coordenação nacional. O programa prevê inclusive a criação de um Ministério da Segurança Pública, caso seja aprovada a PEC correspondente.
Há avanços nos indicadores: o Atlas da Violência 2026 registrou 42.590 homicídios em 2024, a menor quantidade da série histórica iniciada em 2014. Ainda assim, foram quase 43 mil mortes violentas em um único ano, além de fortes desigualdades e problemas específicos de violência contra diferentes grupos.
Outro ponto curioso é que, comprovadamente, mais de 90% da população carcerária afirma votar em Lula. Afinal, quem ele beneficia? De que lado ele parece estar?
_____continua depois da publicidade________
EDUCAÇÃO: O BRASIL AVANÇOU POUCO, MAS A PROMESSA NÃO TERMINOU
Educação também atravessa os programas de governo. O projeto de 2002 defendia expansão educacional, formação profissional e ampliação do acesso ao ensino superior.
Em 2026, o programa novamente promete ampliar creches, educação integral, institutos federais, ensino superior e políticas de alfabetização. O documento registra que 1,8 milhão de novas matrículas em tempo integral foram criadas entre 2023 e 2025, além de investimentos em creches, escolas e institutos federais.
Também aqui os números mostram avanços e problemas simultaneamente: o IBGE registrou 8,4 milhões de analfabetos em 2025, embora a taxa tenha caído para 4,9%, abaixo de 5% pela primeira vez desde 2016.
A PERGUNTA QUE FICA
Não é correto afirmar que Lula simplesmente “não cumpriu nenhuma promessa de 2002”. Há políticas implementadas, resultados mensuráveis e programas que foram efetivamente criados ou ampliados. O próprio programa de 2026 reivindica esses resultados.
Mas existe uma constatação que merece ser colocada diante do eleitor: 24 anos depois da primeira vitória presidencial de Lula, vários dos mesmos problemas estruturais que estavam no centro da campanha de 2002 continuam aparecendo como prioridades, desafios ou promessas nos documentos eleitorais de 2026.
E talvez essa seja a pergunta mais importante desta reportagem: quantas vezes um problema precisa voltar ao discurso de campanha até deixar de ser promessa e se transformar definitivamente em realidade? Quantas eleições mais o atual presidente precisará para cumprir o que, por enquanto, só é discurso e promessa eleitoreira? Inegavelmente ele já teve mais que o suficiente para ‘consertar o Brasil’. Mas, pelo que se vê, o principal projeto não parece, diante das constatações, ser melhorar o Brasil. E sim, se manter no poder pelo máximo de tempo possível, com as mesmas promessas, os mesmo discursos e os mesmos problemas batendo na nossa porta. Alguns, inclusive, cada vez piores…
GOSTOU DESTA REPORTAGEM?
O Conexão Três Pontas é um portal de notícias e marketing, criado no ano de 2014 e dirigido pelo jornalista profissional Roger Campos. Tem como linha editorial a propagação das boas notícias e como grande diferencial a busca incessante pela ética e pelo respeito à verdade dos fatos e às pessoas. Nosso jornalismo é feito de forma séria e sempre baseado no Código de Ética dos Jornalistas.
Por isso, os resultados são sempre bastante satisfatórios, tanto quando o assunto é levar a melhor informação para os leitores quanto na divulgação de produtos, empresas e serviços.
Aproveite e torne-se anunciante! Invista na nossa vitrine para um público de mais de 40 mil pessoas todos os dias.
Ajude o nosso jornalismo profissional a continuar trabalhando em prol de nossa gente e de nosso município.
Venha para a Família Conexão Três Pontas.
Conexão é jornalismo que faz diferença!
Roger Campos




























